13/02/2009
Vitor Graize
vgbatista@redegazeta.com.br
Um disco inédito por semana seria um projeto audacioso demais para qualquer gravadora. Mas soa natural nas palavras do produtor Marcel Dadalto, da Smoke Island, selo independente que oferece música de graça na internet e que se tornou o núcleo de uma nova célula de produção cultural em Vitória.
No ar há um ano, a página do selo se tornou o canal de divulgação e difusão de novos DJs, bandas e produtores de música eletrônica. “Depois do Carnaval, a cada semana vamos lançar um EP (disco compacto). O público vai poder chegar ali sabendo que tem música boa para escutar”, garante o produtor Marcel Dadalto, que fundou o selo e mantém um estúdio num pacato bairro residencial de Vitória.
O plano de lançar material novo com essa frequência só é possível porque há um movimento crescente de pessoas criando música eletrônica no Estado. São bandas e produtores de gerações diferentes, como a Zémaria, que lançou seu primeiro disco em 2002, e a Mickey Gang, formada por garotos de 17 e 18 anos, que prepara seu primeiro EP para março.
Com a marca Smoke Island, 14 lançamentos chegaram aos ouvidos do mundo nos últimos meses. O mais recente é uma compilação reunindo dez projetos locais que mostram a vitalidade da música eletrônica feita no Estado. “A galera não sabia que tinha tanta gente legal e não reconhecia que estava rolando uma cena forte”, conta
Como em uma ciranda produtiva, as relações ultrapassam os limites da criação e diversos projetos surgem à medida que o movimento cresce. Marcel mantém, além do Zémaria, os projetos Monk Ponk, Naji Nahaz e Black Cash, este último em parceria com Victor Kill, que, além do Black Cash, tem o Audiomindz, com Guga Prates.
Victor, que trabalha como DJ desde 1999, é um exemplo da evolução da cena local. Ele começou a criar música própria em 2005, pesquisando estilos e estudando composição. “Desde então, me apaixonei por produção, por ter ideias e conseguir executá-las. Isso é fantástico. O processo de composição é igual a todo tipo de música, só que no meio eletrônico a base é a tecnologia, o computador”, diz o produtor.
Barulhinho
Com o mesmo cuidado de arranjos e de composição da música pop, o produtor Lucas Côrtes criou o projeto Vox Castoridae. “Yoshi Ride”, o primeiro EP, foi lançado em maio pela Smoke Island, influenciado pelos videogames da geração de 8 bits, como o Super Nintendo.
Lucas é um exemplo da geração que já começa a fazer música no computador, pulando a etapa tradicional dos instrumentos físicos. “Sempre tive interesse por música. Comecei brincando de Fruity Loops com uns 14 anos”, conta sobre sua relação com um dos softwares de criação de música mais simples disponíveis. “Dá pra falar que eu comecei tocando baixo, guitarra, bateria, fagote, violino, cello e tudo. Só que não fisicamente.”
O estilo de som do Vox Castoridae é definido como chiptuned music, que soa semelhante àqueles “barulhinhos” dos jogos clássicos de Atari. “Videogame era o sentido do meu dia quando eu era criança”, lembra.
De videogames ao electro rock, a Smoke Island não tem preconceito. “Não tem essa de lançar só o som do momento. Não dá pra ser ortodoxo com música. No final das contas, todo esse papo se resume à galera querer fazer música e às pessoas curtirem”, afirma Marcel.
Para os produtores, o importante é o crescimento da cena e a união dos artistas. “Toda vez que músicos se organizam de alguma forma, há o suporte deles entre si e as coisas começam a fazer mais sentido dentro de um contexto”, diz Paulo Bolzan, do quarteto de electro rock Trepax.
“Eu acho que o selo dá uma força para ter mais visibilidade. A gente está dando a música de graça e com isso tem que tentar manter a atenção e facilitar a vida das pessoas”, completa Marcel, negando qualquer ranço de capixabismo. “Não queremos levantar a bandeira de que somos de Vitória e estamos escondidos. Só estamos buscando o que é nosso”.
Além
A força da cena de música eletrônica não se resume à Smoke Island. No MySpace, é possível escutar projetos ainda incipientes como Dropscandy (www.myspace.com/dropscandy), com remixes e composições próprias, e Cellardoor (www.myspace.com/cellardoorbr), que tem dois álbuns lançados.
Projeto caseiro do publicitário André Graciotti, membro da banda terrorturbo, a Cellardoor disponibilizou “Rites of Passage”, com dez músicas, para download gratuito. “Eu sempre tentei gravar minhas músicas no computador, sempre tive ideias de músicas que não cabiam nas bandas nas quais eu tocava”, conta André. “Com as possibilidades digitais, não tem porque ficar preso à coisa do estúdio e do disco”.
“Ninguém sabe ainda o que está acontecendo no mercado de música. O disco virtual é a melhor forma de divulgar, mas muita gente não se ligou que o virtual é oficial e ainda espera o CD”, lamenta Marcel.
Cena local ganha espaço em rave
As raves, até então territórios para o psy trance, estão se abrindo para apresentações ao vivo de outras vertentes. “O psy é um ritmo que não agrada muita gente do lado do rock e do electro. Agora temos que tornar as raves festas de música eletrônica”, diz Marcel. Quem quiser conferir a diversidade da cena local pode assistir ao cast da Smoke Island dentro da Soul Vibes, que rola em 14 de março, na Fazenda Camping da Barra do Jucu.
Outros projetos de música eletrônica local
Cellardoor
www.myspace.com/cellardoorbr
Projeto solo de André Graciotti, também guitarrista do terrorturbo. Já lançou dois álbuns. O mais recente é “Rites of Passage”, disponível para download gratuito.
Vox Castoridae
www.smokeisland.com
Projeto de Lucas Côrtes inspirado em Super Mario Bros e outros games da geração de 8 bits. Em 2008 lançou o EP “Yoshi Ride” e tem previsto mais um EP para meados deste ano.
Terrorturbo
www.myspace.com/terrorturbo
Desde 2001 na ativa, o quarteto já lançou dois EPs, em 2007 e 2008. Atualmente, a banda ensaia, estuda novos sons e define os rumos da carreira.
Ouça
Vários artistas - Smoke Island Compilation 1
Smoke Island 9 faixas
Ouça em www.smokeisland.com/releases -mp3/smoke-island-compilation-1